Trips & Tips #5

Bolívia, Salar do Uyuni

Depois de Buenos Aires, decidimos seguir sem parar, ou a parar o menos possível, até ao norte do Chile. A ideia era ir até Salta (Argentina) e depois seguir para San Pedro de Atacama (Chile) para começar o tour de 3 dias pelo deserto do Atacama e acabar no magnífico Salar de Uyuni na Bolívia. Não parecia nada de especial, já alguns amigos nossos o tinham feito, nós só nos esquecemos de um pequeno detalhe: quase ninguém se tinha aventurado nesta viagem durante o Inverno (só para avisar que foi feita em agosto, pleno Inverno no hemisfério sul). Tivemos então um pequeno, ligeiríssimo contratempo: não pudemos seguir de Salta para San Pedro de Atacama porque as estradas estavam cortadas por culpa da neve, e ninguém sabia (como geralmente ninguém sabe nestes e noutros lados) quando a situação se ia normalizar, e digamos que Salta não é propriamente uma cidade onde nos apeteça ficar mais do que umas horas, máximo um dia, e assim decidimos alterar o plano.

Alterar o plano implicava esquecer o norte do Chile, esquecer o deserto e seguir directamente para a Bolívia. De Salta fomos para La Quiaca que fica mesmo na fronteira da Argentina com a Bolívia. E aqui tenho de parar para explicar uma coisa, de facto o norte da Argentina é a completa antítese de Buenos Aires, não tem uma semelhança sequer, nada (só mesmo a língua talvez), ali percebemos que gradualmente nos estamos a aproximar de um universo cada vez mais diferente do que tínhamos vindo a ver e ao mesmo tempo a distanciar-nos cada vez mais da nossa própria realidade (se achávamos que o Brasil, ainda assim, era tão diferente e distante da Europa agora passamos a achar que é praticamente a mesma coisa (claro que não é, mas é só para perceberem a discrepância). É aqui, nesta transição que tudo muda. Mas o mais estranho é que não deixa nunca de ser belo, e foi talvez onde captámos as fotografias mais intrigantes e bonitas.

Uyuni, Cemitério de comboios

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After Buenos Aires we decided to go on without stopping, or stopping as little as possible, until the north of Chile. The idea was to go to Salta (Argentina) and then go to San Pedro de Atacama (Chile) to start the 3 days tour through Atacama desert and end at the magnificent Salar de Uyuni in Bolivia. There seemed to be nothing special about this plan, since some of our friends had done it, we just forgot one small detail: almost no one had ventured on this journey during the winter (only to warn that we did it in August, midwinter in the southern hemisphere). So we had a small, very slight mishap: couldn’t go from Salta to San Pedro de Atacama because the roads were cut off by the snow, and nobody knew (as usually nobody knows when it comes to weather) when the situation would be normalized, and lets say Salta is hardly a city where you would want to stay for more than a few hours, maximum one day, so we decided to change the plan.

Changing the plan involved forget northern Chile, forget the desert and go directly to Bolivia. From Salta we went to La Quiaca which is right on the border of Argentina and Bolivia and here I have to stop to explain something, in fact northern Argentina is the complete antithesis of Buenos Aires, hasn’t got any resemblance at all, anything (maybe just the language perhaps). We gradually realize that we were approaching an increasingly different universe from what we had come to see and at the same time increasingly distant to our own reality. It is here, in this transition that everything changes but the strange thing is that it never ceases to be beautiful, and it was perhaps where we capture the most intriguing and beautiful photographs.

Uyuni Train Cemetery

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Há aqui uma história que não pode passar sem ser partilhada, simplesmente porque foi a única altura da viagem em que eu senti medo. Chegámos a La Quiaca de madrugada e saímos do autocarro para atravessar a fronteira a pé e de mochila às costas para Villazón já do lado Boliviano: uma cidade envolta em poeira e feita de tijolo onde se come frango e café com leite para desjejuar, e onde não há pão. Era nesta vila que se ia apanhar o autocarro com destino ao tão ansiado Uyuni, e foi também nesta vila que tudo começou a não fazer tanto sentido. Mulheres que, numa qualquer estratégia de marketing arcaico, gritavam os destinos dos autocarros em plena ”rodoviária” (barracão), autocarros gigantes, coloridos e com suspensões absurdas (depois percebi porquê), que abanavam e gemiam por todos os lados, zero sítios para comer qualquer coisa que não fosse frita ou feita de frango, enfim, um despropósito como eu nunca tinha visto, nem voltei a ver no resto da viagem… Mas fomos. Fomos porque na verdade também não íamos sozinhos (leia-se só com bolivianos), havia mais 3 viajantes que nos acompanharam nesta aventura do autocarro o que, estranhamente e sem razão absolutamente nenhuma, me tranquilizou.

O medo começou então quando vi o estado do veículo: ”tudo bem”, pensei eu, ”relaxa, isto é normal”. Depois continuou quando comecei a ver os ”caminhos” de cabras onde aquele enorme animal se metia (o veículo, não o condutor), com precipícios infinitos e sem hipótese de sobreviver caso uma rodinha falhasse o seu trilho, ao mesmo tempo que tentava apreciar a enorme beleza da paisagem. Quando finalmente atravessámos aquela parte tão assustadoramente bela dos Andes e chegámos a terra firme, respirei de alívio, mas não o devia ter feito. Estávamos a atravessar o deserto e literalmente a andar sem nenhum tipo de estrada (continuo sem perceber como é que o condutor sabia o caminho), quando ele, depois de várias tentativas de embalar o monstro para voar sobre os buracos, encalha o dito num banco de areia, no meio de uma tempestade, vejam só, de areia!

Sol quase a pôr-se e tudo fora do autocarro a tentar encontrar uma solução e ao mesmo tempo a tentar não comer areia, os únicos buracos que não conseguimos tapar foram os do nariz e ouvidos, mas até foi bom porque deu para trazer um souvenir original (como fazem aqui). Não íamos sair dali tão cedo, e qualquer carro que se tentasse aproximar no horizonte embaciado voltava logo para trás quando percebia que ali eram só areias movediças e um gigante encalhado. Estávamos sozinhos, sem recursos no meio do deserto, na Bolívia. Claro que desse momento não há fotografias, porque estávamos demasiado ocupados a tentar sobreviver (como aliás nos aconteceu aqui também).

Finalmente uma solução: Cavar e empurrar! Parece estúpido? Não foi, e eu fui a uma das mais entusiasmadas com a solução cavando o mais que podia (a ideia brilhante do condutor era cavar um trilho sem areia por onde os pneus pudessem rolar e depois recrutar todos os passageiros para empurrar o monstro enquanto ele acelerava o máximo, repetimos isto umas 3 vezes até chegarmos a terra firme, mas conseguimos!ufa!). No entretanto passaram-se umas 12h horas (que eram supostamente 6h) sem comer, sem beber e a trabalhar pelo meio. Chegámos à vila de Uyuni, fomos procurar um hotel que bem mereciamos e no dia seguinte marcámos o tour de 1 dia pelo Salar. E não é que tudo parecia esquecido quando lá chegámos? A brancura e o encanto deste sítio superaram qualquer mau-estar provocado pelos dias anteriores, parecia que estávamos no paraíso.

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There is a story here that can not go without being shared, simply because it was the only time on the trip that I felt fear. We arrived at La Quiaca at dawn and left the bus to cross the border on foot with our backpacks for Villazón on the Bolivian side: a city shrouded in dust and made ​​of bricks where you eat chicken and lattes for breakfast, and where there is no bread. It was in this village that we would take the bus for the longed Uyuni, and was also in this village everything started to stop making sense. Women who, in some archaic marketing strategy, screamed buses destinations on the bus shed; giant, colorful and with absurd suspensions buses (later I realized why), which shook and moaned from every piece; zero places to eat something that wasn’t fried or made from chicken, well, most preposterous scenery I had ever seen, nor returned to see the rest of the trip… But we went on the bus, we had no choice as a matter of fact. We actually felt somehow comfortable because we were not alone (read – only with Bolivians), there were 3 more travelers who accompanied us on this bus adventure which somehow reassured me.

The fear then began when I saw the condition of the vehicle,”okay ” I thought, ” Relax, this is normal” but then continued when I began to see the those tracks that huge beast strucked into (the vehicle, not the driver), with endless cliffs and no chance of survival if a wheel failed its track at the same time I was attempting to appreciate the amazing landscape. When we finally crossed that hauntingly beautiful part of the Andes and reached landfall, I breath of relief, but shouldn’t have done that. We were crossing the desert and literally travelling without any type of road (still don’t understand how the driver knew the way) when he, after several attempts to make the monster fly over the road holes, when that huge bus aground on a shoal in the middle of a sand storm!

Sunset about to happen and everyone off the bus trying to figure out a way to get out of there and at the same time trying not to eat sand, the only holes that we were unable to cover were the nose and ears but it turned out as a good thing because we managed to bring an original souvenir. We were no getting out of there that fast and any car that tried to approach in the tarnished horizon soon returned back when realized there were only a giant stucked bus and a shoal. We were alone, with no resources in the middle of a bolivian desert. Of course there are no photos of that moment because we were too busy trying to survive (as indeed happened in here too).

After hours of what was starting to become desperation finally a solution came up: digging and pushing! It sounds stupid ? It wasn’t, and I was one of the most enthusiastic about the digging solution and dug as much as I could (the driver’s bright idea was to dig a rail with no sand where the tires could roll and then recruit all passengers to push the monster as he accelerated, we repeated this for about 3 times until we reached land, but we did it! phew!). In the meantime it took us 12h hours (which were supposed 6h) without eating, drinking and working in between. We reached the town of Uyuni, went looking for a well deserved hotel and the next day we booked the one day tour to the Salar. And suddenly all seemed forgotten when we got there. The brightness and charm of this amazing site surpassed any malaise caused by past days. It seemed we were in paradise.

Uyuni, Salar

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